31/07/2007
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VARAL VIRTUAL – MARCUS MINUZZI

31/07/2007

O mar do indefinido (trecho)

Sonha comigo, fada boa e criativa.

Rebolas com devoramentos,
Numa atitude de esmagar o pinto.
Aquele homem já não sou.
Amassas meu pau como uva em vinho,
Como milho em pão.
Queres esta glúten,
Para fazer novos pintos,
Dentro de um ovo.
Vários novos mitos meus cabelos irão colorir,
Mitos de arrastar os pés, juntos,
Em lendas sexualizadas, faces obscuras,
Que ninguém entende, apenas ama.
Amor, morte e dúvida:
O maior telhado para nossos terreiros
Só pode ser esta nave indefinida.
Amor de marinheiro.
Sou mistério, Dora, moça bonita,
Mas tenho cristos em meu caminho,
Um maracatu angélico e preciso.
Veloz diamante me pintou sagrado e inatingível,
Guardado em segredo dentro da vagina.
Meu beijo de rã caída e sem máscara verde
Pousará a cruz sobre tuas
Minas inesgotáveis
De sabedoria.


31/07/2007


VARAL VIRTUAL – JOSÉ EDUARDO DEGRAZIA

30/07/2007

DISCÍPULOS DE EROS

Os namorados
são transparentes
quando olhados
de frente
de lado
de perto
ou distante
são diamantes
amantes, amantes
amantes
dão-se as mãos
simplesmente
mentes e olhos
mentem versos
verdades várias
vôos
são pássaros
são peixes
imersos no mar
do amor
esquecidos
de tudo
de nada
de todos
jogam dados
do destino
cantam hinos
são apenas
lábios, lábias
sedução
sábios e vivos
inocentes
e meninos
enquanto amor
os domina
e ilumina.


A HORA CERTA

Quando não se puder
mais olhar uma flor,
quando não se puder
mais amar uma mulher,
quando o mundo for
só aparência de ser
e não permitir alegria,
é a hora certa de plantar,
é a hora certa de cantar,
é a hora certa de amar
é a hora certa de ver,
é a hora certa de viver,
é a hora certa de colher,
a manhã sempre vem,
o amor pode voltar
pra te dizer que a vida
vale a pena ser vivida.

É a hora certa de plantar,
é a hora certa de cantar,
é a hora certa de amar,
é a hora certa de ver,
é a hora certa de viver,
é a hora certa de colher.

– José Eduardo Degrazia nasceu em Porto Alegre em 1951.
Publicou dezenas de artigos e crônicas em jonais e revistas do Brasil e do exterior.
Tem publicados os livros de poemas, Lavra permanente, Cidade submersa, A porta do sol, Piano arcano, e A urna Guarani; seus livros de contos são: O atleta recordista, A orelha do bugre, A terra sem males, e Os leões selvagens de Tanganica; recentemente saiu sua novela O reino de macambira.
Traduziu livros de Pablo Neruda, poetas latino-americanos e italianos.
Foi premiado em poesia, conto, teatro e tradução.


OLIVEIRA SILVEIRA por Oliveira Ferreira da Silveira

29/07/2007

OLIVEIRA SILVEIRA (Oliveira Ferreira da Silveira)

– Poeta negro brasileiro, nascido em 1941 na área rural de Rosário do Sul, Estado do Rio Grande do Sul. Filho de Felisberto Martins Silveira, branco brasileiro de pais uruguaios, e de Anair Ferreira da Silveira, negra brasileira de cor preta, de pai e mãe negros gaúchos. Graduado em Letras – Português e Francês com as respectivas Literaturas – pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS. Docente de português e literatura no ensino médio. Atividades jornalísticas. Ativista do Movimento Negro. Um dos criadores do Grupo Palmares, de Porto Alegre. Estudou a data e sugeriu a evocação do 20 de Novembro, lançada e implantada no Brasil pelo Grupo Palmares a contar de 1971, tornando-se Dia Nacional da Consciência Negra em 1978, denominação proposta pelo Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial, MNUCDR. Como escritor, publicou até 2005 dez títulos individuais de poesia – Pêlo escuro, Roteiro dos tantãs, Poema sobre Palmares, entre outros – e participou de antologias e coletâneas no país e no exterior: Cadernos negros, do grupo Quilombhoje, e A razão da chama, de Oswaldo de Camargo, em São Paulo-SP; Quilombo de Palavras, organização de Jônatas Conceição e Lindinalva Barbosa, em Salvador, na Bahia; Schwarze poesie/Poesia negra e Schwarze prosa/Prosa negra, organizadas por Moema Parente Augel e editadas na Alemanha por Édition diá em 1988 e 1993, com tradução de Johannes Augel; ou revista Callaloo volume 18, número 4, 1995, e volume 20, número 1 (estudo de Steven F. White), 1997, Virgínia, Estados Unidos. Na imprensa, publicou artigos, reportagens, e alguns contos e crônicas. Participou com artigos ou ensaios em obras coletivas, caso do ensaio Vinte de novembro: história e conteúdo, no livro Educação e Ações Afirmativas, organizado por Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva e Válter Roberto Silvério – Brasília: Ministério da Educação/Inep, 2002. Entre algumas distinções recebidas: menção honrosa da União Brasileira de Escritores, do Rio de Janeiro, pelo livro Banzo Saudade Negra em 1969; medalha cidade de Porto Alegre, concedida pelo Executivo Municipal em 1988; medalha Mérito Cruz e Sousa, da Comissão Estadual para Celebração do Centenário de Morte de Cruz e Sousa – Florianópolis-SC, 1998; Troféu Zumbi, obra de Américo Souza, concedido pela Associação Satélite-Prontidão, da comunidade negra de Porto Alegre, 1999; Comenda Resistência Civil Escrava Anastácia, da Rua do Perdão, evento cultural negro, Porto Alegre, 1999; e Tesouro Vivo Afro-brasileiro, homenagem do II Congresso Brasileiro de Pesquisadores Negros, realizado entre 25 e 29 de agosto de 2002 na Universidade Federal de São Carlos, UFSCAR, em São Carlos-SP – ato em 27 de agosto. Atuação em outros grupos a contar de meados da década 1970: Razão Negra, Tição, Semba Arte Negra, Associação Negra de Cultura. Integrante da Comissão Gaúcha de Folclore. Conselheiro da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República – SEPPIR/PR, integrando, nesse órgão com status de ministério, o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial – CNPIR, órgão consultivo, período 2004-2006. Alguns exercícios em texto teatral paradidático (cenas, montagens simples) e música popularesca. Poemas musicados por Haroldo Masi, Wado Barcellos, Aírton Pimentel, Luiz Wagner, Marco de Farias, Paulinho Romeu, Flávio Oliveira, Vera Lopes-NinaFóla, Lessandro e, na Suécia, pela compositora Tebogo Monnakgotla.

VARAL VIRTUAL – OLIVEIRA SILVEIRA

29/07/2007

MÃE-PRETA

Filho de branca babujou teu seio,
Negrinho berrou e berrou,
Sinhá nenhuma amamentou.
Por que não existe mãe-branca?
Por que não existe mãe-branca?
– Mãe branca?
Ora já se viu
É muito desaforo!

– “Roteiro dos Tantãs”

ENCONTREI MINHAS ORIGENS

Encontrei minhas origens
Em velhos arquivos
Livros
Encontrei
Em malditos objetos
Troncos e grilhetas
Encontrei minhas origens
No leste
No mar em imundos tumbeiros
Encontrei
Em doces palavras
Cantos
Em furiosos tambores
Ritos
Encontrei minhas origens
Na cor de minha pele
Nos lanhos de minha alma
Em mim
Em minha gente escura
Em meus heróis altivos
Encontrei
Encontrei-as enfim
Me encontrei

– em “Roteiro dos Tantãs”

CANTAR CHARQUEADA

Até eu cantei charqueada
Chorando a sorte do boi.
Mas descobri que meu canto
Tem raízes noutro campo:
Por trás das cancelas mudas,
Por trás das facas agudas.
Meu canto é uma carne escura
Charqueada a relho na nalga;
É figura seminua
Junto às gamelas de salga.
Carne escura exposta ao vento
Dos varais do saladeiro
Exposta viva ao sol quente
E suas facas carneadeiras.
Carne que se compra e vende
E de bem longe se importa
Se salga, seca e só perde
Quando já é carne morta
E meu canto é dessa carne
Que não é minha e me dói
Sangrando no sol da tarde
De um tempo que enfim se foi
Cabe a mim cantar charqueada
Chorando a sorte do boi?

– em “Pêlo Escuro”


29/07/2007